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RAIZES RELIGIOSAS DA PALAVRA PAZ

RAÍZES RELIGIOSAS DA PALAVRA “PAZ” (Parte 1)
Um olhar a partir das Sagradas Escrituras Judaico-Cristãs

de João Luiz Correia Júnior

 

Não há dúvida: estamos todos mergulhados numa profunda crise social. A violência generalizada que aí está é prova disso. O tema é manchete de jornais e revistas, bem como chamada alarmante dos programas de TV e de tele-jornais. Nas grandes capitais do Brasil, e até mesmo em muitas cidades do interior, as famílias, acuadas pelo medo, mudam de hábito: ficar em casa virou um grande programa para a noite e finais de semana. Para muitas pessoas, o portão de casa ou do prédio é o limite do mundo.

Em virtude dessa brutal situação de violência, observa-se em toda parte um grande clamor social pela paz. Esse clamor das multidões está nas ruas, por meio de grandes passeatas pela paz, e está no desejo mais profundo de cada um de nós.

Nesse contexto desafiador, uma pergunta se faz necessária: o que significa mesmo a palavra “paz”? Qual o seu real significado para o ser humano?

Numa perspectiva mais profunda, a paz não é simplesmente uma situação de ausência de violência ou de guerra; também não se garante pelo equilíbrio das forças contrárias ou pelo aumento de forças armadas (públicas ou particulares) que garantam “segurança”. A pedra angular da Paz é a Justiça Social, garantia da vida e da dignidade de todas as mulheres e homens na sociedade.

Mas, enquanto se luta por um mundo justo e fraterno por meio de políticas que garantam educação, profissão, trabalho, remuneração digna, moradia e saúde para a maioria, é fundamental também ir trabalhando a paz dentro de si, a tão sonhada “paz de espírito”. Quanto alguém vive em estado de paz, está em sintonia com o Deus da Bíblia, o Deus de Jesus, o mesmo “Que está aí” (um possível sentido do nome bíblico de Deus, Iahweh): no mais profundo do “eu” humano, na relação com o “outro”, na comunidade, enfim, no contexto vital em que estamos inseridos, profundamente interligado à totalidade do cosmos.

Diante da urgência dessa reflexão, procuramos neste artigo aprofundar a temática da paz, buscando compreender suas raízes que tocam a dimensão religiosa; e o faremos a partir da cultura religiosa em que estamos inseridos, por meio das Sagradas Escrituras judaico-cristãs.

 

1. O sentido da palavra “paz” na cultura religiosa judaica

O termo hebraico shalôm, traduzido da literatura judaica por “paz”, tem profundo significado. A “paz” nos Textos Sagrados da cultura judaica não é um pacto que possibilita uma vida tranqüila, nem o tempo da paz por oposição ao tempo da guerra... Não é mera pacividade; nada tem de semelhança com a chamada “paz de cemitério”; também não é simples ausência de crise...

Shalôm deriva de um radical que, conforme sua maneira de ser empregado, pode significar o fato de completar ou concluir um trabalho, por exemplo, completar a construção de uma casa (1Rs 9,25); o ato de restabelecer as coisas em seu antigo estado, em sua integridade, por exemplo, “apaziguar” um credor ao pagar o débito de uma transação comercial (Ex 21,34), ou cumprir os votos a Deus (Sl 50,14).

Nessa perspectiva, podemos afirmar que shalôm é uma palavra que contém a idéia de perfeição e completude, situação em que tudo é perfeito. Designa o bem-estar da vida cotidiana, o estado do ser humano em que se vive em harmonia consigo mesmo, com o outro, com a comunidade, com o ecossistema em que tal comunidade está inserida e com o Deus Eterno. Quando irromper o novo tempo, o Messias esperado é chamado pelo Profeta Isaías de Príncipe da Paz: “Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro maravilhoso, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9,5s).

Por aí dá para se entender porque nos Textos Sagrados da cultura religiosa judaica o termo apareça como saudação e como expressão de bons desejos. Não é só uma mera saudação habitual, como por exemplo “bom dia”, “até logo”. Shalôm soa como uma bênção, algo tão maravilhoso que só pode vir diretamente do poder de Deus. O povo de Deus já entoava em salmos: “Iahweh dá força ao seu povo, Iahweh abençoa seu povo com paz” (Sl 29,11). De fato, o Deus da Bíblia é concebido como o “Deus da Paz”. Por exemplo, em Js 6,24, o altar de Gedeão era chamado “Iahweh-Shalom”, que significa “Iahweh é Paz”. Shalôm é, portanto, uma saudação impregnada de bênção escatológica, uma vez que contempla um dos mais profundos desejos humanos: vida com dignidade e bem-estar.

Na literatura profética da cultura religiosa judaica, já está presente uma intuição profunda: “O fruto da justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranqüilidade e na segurança para sempre” (Is 32,18). Aos poucos vai se formando a compreensão de que a paz de Iahweh Shalom é para ser construída por seus fiéis, na sociedade e no contexto histórico do tempo presente. Por aí se entende porque os profetas de Israel foram contundentes na crítica a todo comportamento social que se afasta da vontade desse Deus da Paz.

Na literatura profética, bem como em toda literatura religiosa judaica, a prática da justiça social é, sem dúvida, uma das prioridades entre as exigências do Deus de Israel, o Deus da Paz. O termo “justiça”, em hebraico sedaqah, não corresponde a uma troca de alguma coisa por outra de igual valor. Na perspectiva na literatura religiosa judaica, é algo que se estende além das relações humanas, atingindo ao sentido da própria existência humana: Pela justiça, a harmonia se expande entre as diversas criaturas de Iahweh; ela é promessa de vida e abundância, elementos constitutivos da essência deShalôm. A injustiça rompe a unidade da obra criadora: introduz o caos no mundo e a desordem na sociedade, induzindo naturalmente à morte.

Vejamos, então, o tema da Paz, fruto da Justiça Social, em alguns desses profetas de Israel, tais como Amós, Miquéias e Isaías.

Amós, o primeiro profeta que temos conhecimento por meio da escrita, que atuou por volta de 760 a 750 a.C., em Israel (Reino do Norte), foi porta-voz da cólera divina por quem despreza o direito e escarneia da prática da justiça. Por isso o profeta denuncia a hipocrisia de um culto a Iahweh-Shalom hipócrita, desmentido diariamente pela prática daquilo que não corresponde à vontade divina:

“Ai dos que transformam o direito em veneno e atiram a justiça por terra... Eu detesto e desprezo as festas de vocês... tenho horror dessas reuniões litúrgicas... Longe de mim o barulho de seus cânticos, nem quero ouvir a música de suas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como riacho que não seca” (5,7.21-24).

Desse modo, Amós critica duramente a quem se ilude pensando satisfazer ao Deus da Paz apenas participando de cultos religiosos. Louvar a Deus é importante para alimentar a fé no aspecto pessoal e coletivo, mas essa prática cultual deve estar expressa no cotidiano pela prática do direito e da justiça, fundamentos da Paz Social.

Miquéias (que exerceu sua atividade profética em fins do século VIII a.C.) lembra que é impossível haver paz social enquanto se mantém a exploração econômica, empobrecendo e marginalizando socialmente grande parte da população. Ele denuncia o comércio com que se enriquece a classe dominante (“casa do ímpio”, ou seja, de quem não faz a vontade de Deus); isso terá como conseqüência profunda instabilidade social e conseqüente ausência de paz:

“Acaso posso tolerar a casa do ímpio com seus tesouros ganhos injustamente, com sua medidas falsificadas e detestáveis: Acaso devo desculpar balanças viciadas, sacolas cheias de pesos adulterados? Os ricos prosperam com a exploração, os seus habitantes só falam mentiras e têm na boca uma língua mentirosa... Você comerá, mas não matará a fome; e a fome será a sua companheira. Você guardará, mas não poderá conservar; a sua reserva, eu a entregarei aos inimigos. Você plantará,mas não colherá; esmagará azeitonas, mas não se ungirá com azeite; pisará uvas, mas não beberá vinho...” (Mq 6,9-16)

A instabilidade nas relações sociais, a violência generalizada que amedronta todas as camadas sociais é, de algum modo, já concebida pelo profeta como conseqüência das relações sociais corrompidas pela prática da injustiça e da não observância do direito: “A terra será um lugar abandonado, por causa de seus moradores, como fruto de suas más ações” (Mq 7,13).

Isaáis, profeta que viveu no século VIII a.C. e desencadeou uma verdadeira escola inspirada em seu espírito profético, deixa claro que é possível construir a Paz Social por meio da urgente mudança de comportamento pessoal, aquilo que numa linguagem religiosa chamamos de conversão:

“Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades que vocês praticam. Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem; busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva...”(Is 1,16-17).

Para o profeta, uma vida com fartura e dignidade, em pleno gozo da Paz, é conseqüência da opção de observar os conselhos de uma vida fundamentada na prática do direito e da justiça. Cabe ao ser humano, no seu livre arbítrio, seguir ou não ao projeto do Deus da Paz.

Na concepção da escola do profeta Isaías, a opção em observar a vontade de Deus concretiza uma aliança indispensável para instaurar um reinado de paz em meio aos grandes desafios da história:

“Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que apregoa a vitória, que diz a Sião: ‘Já reina o teu Deus’”(Is 52,7).

Os “pés do mensageiro” cheios de calos e feridas, sujos da poeira da estrada, são “belos” na poética do profeta. A razão é que tal mensageiro anuncia uma grande novidade: a reconstrução de um povo que deseja se por sob o reinado de Deus, em tempos de paz.

Esse reinado do Deus da Paz é projetado com grande apoteose para o futuro. Em Is 65,17-25 é o próprio Deus quem promete um tempo novo de alegria e paz, em que as pessoas finalmente poderão viver com dignidade, em todos os estágios da vida, desde a infância à terceira idade:

“Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas, nunca mais voltarão ao pensamento. Por isso fiquem para sempre alegres e contentes, por causa do que vou criar. Farei de Jerusalém uma alegria, e de seu povo um regozijo... E nunca mais se ouvirá choro ou clamor. Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias, pois será ainda jovem quem morrer com cem anos... Construirão casas e nelas habitarão, plantarão vinhas e comerão seus frutos... Ninguém trabalhará inutilmente, ninguém gerará filhos que morram antes do tempo... Antes que me invoquem eu responderei, quando começarem a falar, eu já estarei atendendo... O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi...”

Desse modo, podemos afirmar que na literatura profética de Israel já havia a consciência de que a Paz é conseqüência da prática da Justiça Social: ter uma terra fecunda para plantar e colher os frutos para ter a mesa farta e comer até se saciar; habitar em segurança, sem medo de inimigos; dormir sem temor, com as portas abertas; não ter inimigos; multiplicar-se na face da terra, podendo passar por todas as etapas da vida, da fase de criança à terceira idade... E tudo isso porque o Deus da Paz está reinando no meio do seu povo (Lv 26,1-13).

Longe de ser simples ausência de guerra, Shalom é vida em plenitude, na presença de Deus. De fato, como são belos os pés do mensageiro que anuncia esse novo tempo de paz... Nessa perspectiva poética e profética, podemos afirmar com Isaías: Como são belos os pés de quem anuncia a Boa Notícia do Reinado do Deus da Paz...

   

de João Luiz Correia Júnior

 

O sentido da palavra “paz” nos textos fundadores da religião cristã

            Nos Textos Sagrados do Cristianismo (Segundo Testamento da Bíblia), o termo que traduzimos por “Paz” é a palavra grega Irene. O termo não tem nada a ver com o sentido da palavra romana “Pax”. Procura guardar o sentido do termo hebraico Shalôm, usado nas Sagradas Escrituras Judaicas.[1] Assim, vejamos...

 

No Evangelho de Paulo

Nas Cartas Paulinas, Irene guarda o sentido judaico de Shalôm. Não se trata da propalada “Pax et Securitas” romana, propaganda ideológica de que onde o Império domina há paz e segurança.

Já em 63 a.C., Pompeu invadiu a Judéia sob a bandeira da “paz e segurança”... Mas essa ideologia foi, sobretudo, uma realização do Imperador Augusto.

Augusto (Venerável) é um título conferido pelo Senado Romano, em 27 a.C., ao Imperador, cujo nome de origem era Caio Otávio. Ele era sobrinho de Caio Júlio César. Quando César o adotou como seu herdeiro, tomou o nome de Caio Júlio César Otaviano. Nas guerras civis que se seguiram ao assassinato de César em 44 a.C., Otaviano triunfou finalmente em 31 a.C., e governou Roma até sua morte, em 14 d.C.  Ele recusou o título de rei, mas governou mediante o controle do Senado e mantendo em suas mãos as funções de tribuno e procônsul das províncias onde as legiões estavam estabelecidas... Todos os imperadores posteriores conservaram o título de Augusto.[2]

Com poder concentrado em suas mãos, o Imperador realiza uma série de reformas, adequando Roma à sua nova condição de Estado mundial. Começa um grande processo de urbanização por todo o Império, forma mais adequada à instalação das estruturas de dominação. Roma instaura a ideologia de que, com a dominação romana, surge uma idade áurea de paz e segurança.

Desse modo, o imperador celebrava uma paz assegurada pela vitória, uma vez que a “Pax” romana era em geral imposta aos povos mediante a guerra. Augusto “pacificou” a Gália, Espanha, Alemanha, Etiópia, Arábia e Egito pela força das armas. Em toda parte que o Império fincava suas garras, fixava-se uma cláusula de paz e segurança para justificar a perda de autonomia do desgraçado povo conquistado, e compensar os terrores iniciais da dominação... Por meio dessa ideologia, o poder romano garantia o grau elevado de exploração que se dispunha manter...[3]

            Paulo repudia duramente essa mensagem de “paz e segurança”, propaganda ideológica do Império, situando-a do lado das trevas, símbolo do mal e da morte... É o que lemos numa das últimas advertências da Carta aos Tessalonicenses:

“Quando as pessoas disserem: ‘Estamos em paz e segurança’, então de repente a ruína cairá sobre elas, como dores do parto para a mulher grávida, e não poderão escapar. Mas vocês, irmãos, não vivem em trevas, de tal modo que esse dia possa surpreendê-los como um ladrão. Porque todos vocês são filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas. Portanto, não fiquemos dormindo como os outros. Estejamos acordados e sóbrios” (1Ts 5,3-6).

Essa advertência à comunidade cristã é pedagogicamente voltada para a desalienação contra a ideologia dominante. Para Paulo, os discípulos e discípulas de Jesus não podem compactuar com a ideologia das trevas, pois são filhos e filhas da “luz”. Como tal, têm de estar “acordados e sóbrios”, isto é, com consciência clara para discernir sobre o que está acontecendo no cenário político e social do contexto presente, e optarem pela fidelidade ao compromisso com a causa da vida[D1].

A motivação para resistir à falsa paz do império, segundo Paulo, não poderia ser outra, senão o próprio Jesus, “nosso Kyrios”, isto é, “Senhor” dos que, tal como o Apóstolo, seguem Jesus, o único que nos dá paz e segurança, estejamos “acordados ou dormindo”. Temos aqui uma contraposição ao Kyrios do mundo: Augusto. Vejamos o texto:

“Pois Deus não nos destinou à sua ira, e sim para a salvação através de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual morreu por nós a fim de que, acordados ou dormindo, fiquemos unidos a ele. Portanto, consolem-se mutuamente e ajudem-se uns aos outros a crescer, como aliás vocês já estão fazendo” (1Ts 5,9-11).

Além da fé unicamente no Senhor Jesus, contrapondo a fé no Senhor da terra, Paulo sugere a vida comunitária como uma excelente forma de resistência ao poder do Império: “consolem-se mutuamente e ajudem-se uns aos outros”.

Segundo Paulo, as orientações práticas para a vida comunitária, orientam na direção dos fundamentos para a construção da verdadeira Paz. Tais fundamentos espelham-se na prática de Jesus.

Exemplo disso está no belo canto cristológico, provavelmente usado nas celebrações das primeiras comunidades cristãs e recuperado por Paulo na Carta aos Filipenses. Lemos, como introdução, a seguinte proposta: “Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl 2,5), isto é, os mesmos sentimentos que motivaram Jesus ao “esvaziamento de si mesmo”, abrindo mão de todos os seus privilégios.

Para quem vive no contexto do Império, como os cristãos da comunidade de Filipos, esse “esvaziar-se” de si significa abrir mão dos privilégios de pertencer ao politeuma judaico (3,4-11) e também renunciar aos privilégios da cidadania romana. “Num tempo em que Roma reconhecia oficialmente o direito dos judeus, único no império, de honrar a César com preces ao seu próprio Deus solitário em seu favor, Paulo urge firmemente aos filipenses (e a outras comunidades) a resistirem àqueles – provavelmente gentios convertidos ao cristianismo – que advogavam a camuflagem protetora de um modo judaizante de vida”[4].

Rompendo com a ideologia do Império, cujo grande sonho das pessoas consiste em dominar os outros como senhor de muitos servos, e cujo fundamento está sintetizado na práxis da violência disfarçada de paz, a proposta de Paulo consiste numa contra-ideologia dominante, que consiste concretamente no esvaziar-se de si mesmo, assumindo a condição do serviço solidário, segundo o paradigma Jesus, que “assumiu a condição de servo” (Fl 2,7).

Por meio do serviço solidário, em que todos são iguais no serviço, seja qual for o tipo de serviço, as comunidades cristãs são chamadas a dar excelente exemplo. Nessa linha de reflexão, por meio da metáfora do corpo aplicado à vida comunitária, Paulo sugere que é possível manter a unidade, isto é, a Paz entre as pessoas, desde que cada qual se disponha a servir, na diversidade dos serviços prestados para o bem comum. Nisso está o alicerce da verdadeira Paz Social, única capaz de construir a Justiça Social tão sonhada pelos profetas de Israel. A Paz comunitária, segundo o paradigma cristão tem, portanto, seus fundamentos na solidariedade por meio do serviço (1Cor 12,12-31).

Nessa perspectiva, podemos compreender porque Paulo, logo em seguida, coloca o tão conhecido hino ao Amor (1Cor 13,4-7), como que para dizer que o Amor é o cimento que dá consistência ao alicerce do serviço solidário, sem o qual não pode haver Paz:

“O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...”

Nos Evangelhos, Jesus é apresentado como alguém que promove a Paz pelo serviço solidário em prol da promoção da vida. E o faz não só por meio de suas sábias palavras de orientação mas, sobretudo, por suas ações solidárias. Não é paz de aparências, fundamentada no medo do poder bélico militar dos que detêm o poder, ou em sua propaganda de que em toda parte temossegurança...

Em sintonia com a literatura religiosa judaica, que apresenta o Deus de Israel como aquele que liberta de toda situação de opressão, miséria e escravidão (Ex 3,7-8), causadora de sofrimento e promotora da violência generalizada em todas as camadas sociais, os Evangelhos Sinóticos apresentam Jesus como aquele que vem restaurar o reinado desse Deus na história, promovendo bem estar social e paz não só para o povo de Israel, mas para todos os povos. Assim, vejamos...

           

O Evangelho de Marcos.

O contexto em que surgiu o texto de Marcos não promovia a paz social e, conseqüentemente, também não era promotora de paz pessoal, justamente porque produzia muita gente socialmente desenraizada, prestes a deixar seu domicílio e a vida regular. As condições sócio-econômicas do contexto de Marcos estavam ainda mais deterioradas, do que aquelas do tempo de Jesus. Especialmente na década anterior aos levantes da guerra romano-judaica (período que mais ou menos corresponde ao da redação do Evangelho), a deterioração econômica e política deixou em extrema pobreza partes significativas da população palestinense, principalmente nas áreas rurais. E, como parte inseparável do ciclo de pobreza, a doença e a incapacidade física se fizeram sentir mais fortemente. Para o trabalhador diarista, a conseqüência disso era imediata: desemprego e empobrecimento ainda maior. Com isso, só fazia aumentar o número daquelas pessoas que engrossavam as “fileiras” das multidões, verdadeiro “exército” de excluídos(as) sociais.[5]

Em muitas narrativas do Evangelho de Marcos Jesus age em prol da Paz, na medida em que resgata vidas humanas excluídas, desse contexto violento, promotor de miséria e morte. E o faz de forma corajosa: em pleno contexto de dominação dos aliados do Império Romano, promotor da “Pax” romana:

“Depois que João Batista foi preso[6], Jesus voltou para a Galiléia, pregando a Boa Notícia de Deus. O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1,14-15).

“...Levavam a Jesus todos os doentes e os que estavam possuídos pelo demônio.A cidade inteira se reuniu na frente da casa. Jesus curou muitas pessoas de vários tipos de doença... (Mc 1,32-34).  

De fato, em Marcos, os relatos de milagres são muitos. Salientam a necessidade de se promover a Paz por meio de ações concretas que, primeiro, resgatem as pessoas da goela da morte. Inaugura-se, desse modo, o tão esperado tempo messiânico (como vimos anteriormente quando refletimos sobre os textos do Profeta Isaías).  Tais relatos aparecem como uma forma de promover a paz, por meio do compromisso real com o projeto do Deus da Vida. Sem dúvida, Jesus promove a “Paz” ao restaurar vidas. Por isso, costumava dizer às pessoas curadas: “Vai em PAZ e permanece curada de tua doença” (Mc 5,34).

 

O Evangelho de Mateus

Para o evangelista Mateus, que dialoga o tempo todo com a cultura judaica, Jesus é apresentado como o presente do povo de Israel para todos os povos. Um menino, criança, símbolo por excelência do ser humano sem poder, é apresentado às nações pelo cosmos (representado pela estrela guia) como aquele que merece realmente ser adorado, Jesus, o Rei dos Judeus, o promotor da Paz verdadeira, numa possível referência que contrapõe ao Senhor de Todos os povos, o Imperador Romano, promotor da paz de aparências. Nessa perspectiva, a presença dos magos (cf. Mt 2,1-23) simboliza a participação de todos os povos, incluídos na Boa Nova do amor de Deus manifestado em Jesus.

Jesus lembra que as pessoas comprometidas com a paz serão consideradas filhas e filhos do Deus da Paz, numa profunda coerência com o Primeiro Testamento da Bíblia. É o que está contemplado no Sermão da Montanha, mais especificamente no trecho das Bem-Aventuranças (Mt 5,9): “Felizes os que promovem a paz: eles serão chamados de filhos de Deus (Mt 5,9).

 

O Evangelho de Lucas

No Evangelho de Lucas, quando uma multidão do exército celeste (símbolo do poder de Deus) aparece a humildes pastores da Galiléia (símbolo da humanidade vitimada pela exclusão social promovida pelo poderio bélico militar do Império Romano), proclama num coro grandioso “Glória a Deus no alto, e na terra paz às pessoas que ele ama!”. O motivo é o nascimento de Jesus de Nazaré. O dom da “Paz” será finalmente oferecido às pessoas que Deus ama (as vítimas da violência, as pessoas impossibilitadas de viver em paz por estarem em situação de exclusão social).

O nascimento de Jesus é, nessa perspectiva, a presença viva da “Paz”, uma vez que Jesus encarna, por meio de suas palavras, comportamentos e atitudes, o Deus da Paz. Em sua missão no norte da Palestina, região de muitos latifúndios e, conseqüentemente, de muita exclusão social de famílias e comunidades inteiras que simplesmente sobram no sistema econômico vigente, condenadas a não ser.

Não é sem razão que os discípulos e discípulas de Jesus costumavam, influenciados por Jesus, saudar com a Paz. A saudação, nesse contexto, é uma palavra de poder, que comunica algo do dinamismo das palavras de Jesus: quando houver recusa em aceitar a paz, a paz transmitida retorna a quem pronuncia a saudação (Lc 10,5).

 

No Evangelho de João

Os capítulos 13 a 17 do Evangelho de João formam uma unidade, dentro do contexto da Páscoa, em que Jesus faz a última ceia com seu discipulado, antes de ser entregue. A Páscoa judaica e a Páscoa nova de Jesus são a moldura ideal dessa unidade, na qual temos uma espécie de testamento espiritual do Mestre, num discurso de despedida.

No meio desse discurso, Jesus deixa a sua Paz para as pessoas que o acompanham em sua missão:

“Eu vos deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá. Não fiquem perturbados, nem tenham medo”. (Jo 14,27).

 

Essa “Paz” que Jesus transmite ao seu discipulado é como que uma síntese de tudo o que realizou, satisfazendo a vontade do Pai. Jesus deixa como testamento a sua Paz para quem se habilita a participar de sua luta vitoriosa sobre as forças deste mundo. Trata-se de uma Paz que o mundo desconhece, isto é, que nada tem a ver com “Pax” romana, paz de aparências. A Paz que Jesus dá é algo que brota do mais profundo de uma vida que soube testemunhar a vontade do Deus da Paz.

 

Conclusão

Pelo apresentado exposto, podemos inferir que a cultura religiosa judaico-cristã, em sua origem, inspirou uma mística que, ao longo dos séculos, tem ajudado mulheres e homens a encontrarem sentido na vida ao se empenharem na promoção da Paz.

Ser uma pessoa mística não significa tão somente desenvolver as faculdades espirituais da sensibilidade, da inteligência, da vontade e do coração. Trata-se de entender, orientar e alimentar a vida a partir do Espírito de Deus, Espírito de Amor que tudo anima com seu toque vital, o mesmo que animou Jesus de Nazaré daquela intencionalidade, vigor, exuberância, atitudes, práticas, que caracterizaram a sua vida, paixão, morte e ressurreição.

O sentido da palavra “mística” está bem apresentado no “Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia”, da Paulus[7]:

Etimologicamente, mística provém do grego myô. Este verbo significa o procedimento de fechar os olhos e olhar para o interior. Daí se deriva, sobretudo, o tipo de mística do mergulho no divino. Constata-se, ademais, historicamente, uma associação lingüística e uma conexão objetiva com os cultos mistéricos: myéô significa iniciar-se nos mistérios.Mystês, era, portanto, o iniciado nos mistérios.

A Mística nasce da necessidade humana de sentido para a vida ou como busca de respostas às questões primordiais da existência. Mística é, então, maneira de fazer com que este sentido tome forma como experiência ou que a pessoa se aproxime do sentido de maneira perceptível. Dois elementos fundamentais caracterizam a Mística:

a) a expressão objetiva dessa experiência no pensamento e no sentimento, na vivência e no estilo de vida (comportamento);

b) a experiência subjetiva, pessoal, intransferível, por meio de visões, êxtase e profecias, contemplação, como também asceses especiais altamente exigente ou estilo de vida extraordinário.

Na Mística, o centro de todos os fenômenos ordinários e extraordinários é a visão extática: o ser humano é arrebatado acima de si e “percebe” (do latim experiri) que com ele está presente mais do que ele próprio.

Na Mística Cristã, essa experiência leva ao Cristo encarnado, isto é, à pessoa de Jesus de Nazaré. O Crucificado (mística da paixão) e o Ressuscitado (mística da luz) são parte dela. Mística Cristã é, pois, a experiência de Jesus Cristo.

A mística cristã não é esotérica (ou o é apenas em sentido relativo); se ela está presente aí no sentido da visão extática, não o evidenciam a intensidade da percepção ou sentimento nem outras formas de fenômeno extraordinário, mas a mudança da vida prática (metanóia, conversão). Sem conversão prática não há mística cristã. 

A mística que promove a paz, “mística da paz”, é um modo de vida, um jeito de viver a Espiritualidade Judaico-Cristã, tão bem expressa nas Sagradas Escrituras dessas duas Religiões. Por meio dela, muitas pessoas testemunharam, ao longo dos séculos, de que é possível assumir o desafio do tempo presente, buscando inspiração no Espírito de Amor que é a essência do Deus da Paz. Tal mística procura dinamizar a potência divina que cada ser humano carrega em si mesmo, com o intuito de interferir positivamente / amorosamente em prol da vida, como co-responsável pela Criação de Deus. Essa é a vocação primeira de todos nós[8].

É urgente, portanto, cultivarmos o trigo precioso da mística da paz que, como vimos, estava tão presente nas raízes da cultura religiosa judaico-cristã. Pena que, ao longo dos séculos, o joio da cultura da violência tenha crescido tanto. Mas, não desanimemos. Ainda há tempo de promover a paz...

 

Bibliografia

BEOZZO, José Oscar. Apresentação.  In: Dom Helder Câmara: obras completas: v. 1, Vaticano II – Correspondência conciliar – Circulares à família do São Joaquim, 1962-1964. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2004.

BOFF, Leonardo. A vida segundo o espírito. Petrópolis: Vozes, 1982.

CONIC – Conselho Nacional das Igrejas Cristãs no Brasil. Solidariedade e Paz: texto-base CF-2005 Ecumênica. São Paulo: Salesiana, 2005.

CORREIA Jr., João Luiz. O poder de Deus em Jesus: um estudo de duas narrativas de milagres em Mc 5,21-43. São Paulo: Paulinas, 2000.

ELLIOTT, Neil. Libertando Paulo: a justiça de Deus e a política do apóstolo. São Paulo: Paulus, 1998.

LECLERC, Eloi. Francisco de Assis: o retorno ao evangelho. Petrópolis: Vozes, 1983.

LÉON-DUFOUR, Xavier. Vocabulário de Teologia Bíblica. Petrópolis: Vozes, 1972, verbete “Paz”.

MACKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1984.

MARQUES, Luiz Carlos Luz (Org.).. Introdução geral às circulares conciliares.  In: Dom Helder Câmara: obras completas: v. 1, Vaticano II – Correspondência conciliar – Circulares à família do São Joaquim, 1962-1964. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2004.

MIETH, Dietmar. Verbete “Mística”. In: Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia. São Paulo: Paulus, 1999.



[1] Há algumas exceções, como o dito de Jesus segundo o qual ele “não veio  para trazer a paz, mas a espada” (Mt 10,34; Lc 12,51).

[2] MACKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 97, Verbete “Augusto”.

[3] ELLIOTT, Neil. Libertando Paulo: a justiça de Deus e a política do apóstolo. São Paulo: Paulus, 1998, pp. 243-244.

[4] ELLIOTT; op.cit. p. 258.

[5] CORREIA Jr., João Luiz. O poder de Deus em Jesus: um estudo de duas narrativas de milagres em Mc 5,21-43. São Paulo: Paulinas, 2000, pp. 96-97.

[6] O profeta João foi preso por Herodes Antipas, o Grande, vassalo romano na Palestina. Como Herodes fora seguidor de Antônio, o Imperador Augusto o confirmou como rei dos judeus. Governou de 37 a 4 aC.

[7] MIETH, Dietmar. Verbete “Mística”. In: Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia. São Paulo: Paulus, 1999, pp. 564 –569.


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